“Entre mortos e feridos, entre gritos e gemidos, a mentira e a verdade, a solidão e a cidade. Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem que não passa por aqui, que não passa de ilusão..”
“De quê vai adiantar ser falso? O que posso ganhar com isso? Acho que não sou tão frio o suficiente pra não sofrer comigo mesmo causando dor pra outras pessoas. Acredito que não sou o suficiente pra muitos, nem pra mim mesmo eu sou. Pareço que sou um ladrão de tristezas, aonde passo consigo arrancar lagrimas alheias e guarda-las pra mim, deixando um belo sorriso bobo no lugar.
Eu tenho talvez o dom de cuidar por minutinhos de almas machucadas, sonhos feridos, consigo deixar curas, sem cicatrizes nem muitas lembranças. O pior de tudo é que com as lágrimas alheias guardadas, eu monto meu estoque. Um estoque imenso, de dor, sofrimento, apenas pra mim. As vezes no silêncio da noite, pego algumas lágrimas caídas em meu rosto, escorrendo pro meu travesseiro… Logo vem a vontade de acabar com essa droga toda. Tranco a porta, olho meu relógio que marca 3 da manhã. Abro meu guarda roupas, e embaixo de minhas roupas estão minhas armas mortais, mortíferas, e amigas ao mesmo tempo.
Lá se vou eu, encostando novamente elas em meu braço esquerdo, apoiado na cama, sendo pressionados novamente por lâminas… Sempre com a mesma intenção, e objetivo. Nessa linda madrugada, consegui o meu objetivo principal.
Ali mesmo, com fones de ouvido, meus pulsos começaram a espirrar sangue de uma forma descontrolável, como produto disso, meus olhos se encheram de lágrima. Estava abandonando sonhos impossíveis, gostos diferentes,meu jeito diferente… Lentamente meus olhos foram se fechando até que meu ultimo suspiro, ainda com meus fones de ouvido, foi seguido da frase ” In another Life…”.
De manhã cedo, um domingo,bateram na minha porta trancada,mas meus pais nem se importaram. Saíram, foram almoçar… Na volta, tornaram a bater, e nada de resposta. E foi assim até a segunda feira de manhã, na hora da escola. Com um simples chute, meu pai conseguiu quebrar a porta, se deparando com uma cama vermelha, ensopada de sangue, já meio seco, e meu corpo, extremamente frio, branco, e sem respostas, com fones de ouvido e lâminas ao chão. Minha mãe já havia saído pra trabalhar, então meu pai apenas correu ao telefone, e ligou pra mesma. Que entrou em estado de choque quando soube da notícia. Mais tarde, meu velório estava postos, como eu havia pedido antes de tudo, em brincadeiras, que queria morrer com meus fones de ouvido, e todos os meus CD’s comigo. Dito e feito.
Passaram-se 3 meses, minhas irmãs não perguntavam mais de mim. Amigos? Nunca fiz falta mesmo… Meu pai tocou a vida em frente, afinal eu não significava muito pra ele. Mas minha mãe, entrou em quase estado de loucura. Que ja estava sendo tratada. Após 3 anos, vejo de onde estou, por alma, que tudo foi tão rápido, todos me esqueceram assim de uma forma tão fácil. Ninguém toca no meu nome a mais de um ano. Minha mãe voltou a trabalhar, minhas irmãs estão mocinhas lindas, e meu pai, já separado de mamãe, vive a vida dele com outra família.
E eu? o velho ladrão de tristezas continuo aqui, levando sorrisos para o interior de pessoas que talvez não mereçam, ou que até não tenham um dia se importado comigo quando eu habitava a terra.
E as lágrimas que caem hoje, de meus olhos são lágrimas que liberam toda minha força, que eu tento deixar presa a cada segundo da minha vida.